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Na Grade do MMA

Crise de Aldo com o UFC é apenas mais um capítulo da realidade capitalista

Jorge Corrêa

29/09/2016 12h59

RIO DE JANEIRO, BRAZIL - MARCH 20: UFC featherweight champion Jose Aldo of Brazil (L) and challenger Conor McGregor of Irleland face off as UFC President Dana White (C) stands in during the 189 World Media Tour Launch press conference at Maracanazinho, at Maracanazinho on March 20, 2015 in Rio de Janeiro, Brazil. (Photo by Alexandre Loureiro/Zuffa LLC/Zuffa LLC via Getty Images)

Esse gesto de Conor McGregor não é por acaso…

A situação de José Aldo com o UFC é uma perfeita alegoria, crua e brutal, do capitalismo atual. Tem como pano de fundo a eterna luta de classes e racial que o mundo ocidental vive e que de tempos em tempos faz questão de deixar clara que está entre nós. A classe média burguesa e consumidora adora falar que não existe, até algo assim acontecer.

Colocando na ponta do lápis, temos de um lado o brasileiro que ficou dez anos invicto, era até então o único campeão de uma categoria inteira do UFC, que tinha nove defesas consecutivas de cinturão, mas que nunca fez questão de ser um showman fora do octógono. Do outro, o cara bem afeiçoado, que fala bem, que estudou a vida inteira, que entende como funciona o show business e – com isso – se tornou o maior vendedor de pay-per-view da franquia.

Muitos vão exaltar a falácia da meritocracia. A chance está aí para todos. Veja só José Aldo: saiu da favela e com as próprias mãos conseguiu sucesso na carreira que escolheu e ganhou muito dinheiro com isso.

Mas sempre vem a tal "mão invisível" mostrar que não é bem assim. Ele continua sendo o preto ou pobre, que teve menos oportunidade de educação que o rico, branco e europeu. A vitória de McGregor sobre Aldo em 13 segundos foi a tempestade perfeita que os patrões precisava para virar o jogo.

Não coloquemos a culpa da falta de tato de Aldo, de ele nunca ter feito questão de aprender inglês, de ter preferido treinar que ofender seu rival para vender luta. Para o preto ou pobre, a única chance é trabalhar. E foi o que ele fez.

(Um adendo importante: o brasileiro melhorou, sim, sua postura para se aproximar um pouco mais do lado midiático de seu algoz. Passou a falar um pouco mais, entrar no jogo de cena do irlandês, provocar. Mas pelo visto não foi o suficiente.)

Entendam que o (único) culpado de tudo isso não é o UFC. Dana White não o vilão dessa história. É algo muito maior. O evento não favorece Rondas Rouseys e Conors McGregors porque não gosta de Josés Aldos e Andersons Silvas. Simplesmente os primeiros dão mais dinheiro.

No final das contas, quem manda é sempre o capital. O dinheiro sempre vai preferir o branco rico ao preto ou pobre porque historicamente é quem gera mais dinheiro – é quem teve mais oportunidade – e pelo racismo orgânico da nossa sociedade. Essa é a mais dura verdade. E ninguém está fazendo nada para mudar isso. Afinal, não existe racismo e a meritocracia é para todos.

(Texto com contribuições preciosas ao debate dos amigos Fernanda Prates, Gustavo Francheschini, Maurício Dehò e Paula Almeida.)

Sobre o blog

Saiba o que acontece dentro e fora do octógono, relembre as grandes histórias e lutas que fizeram o vale-tudo se tornar o MMA. Aqui também será o espaço para entrevistas, análises, debates, polêmicas e tudo que faz do MMA o esporte que mais cresce no mundo.
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